quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Augusta
AUGUSTA
"... Rasgando as almas que na sombra tremem." Violões que choram. Cruz e Souza.
De bruços, atirada na areia, olhos fixos no mar, Augusta desfrutava de merecidas férias, no litoral carioca. Imagens difusas e distantes passavam pela sua cabeça. Lembranças de outros tempos, de desafios vencidos, de derrotas ocasionais. Pensava no entusiasmo que a levou a vencer obstáculos, a seguir em frente, a lutar por tudo aquilo que a movia diante da vida. Pensava que já não era jovem, que abdicaria de certos sonhos, que não experimentaria ilusões em relação ao próprio cotidiano.
Sempre fora ela uma mulher de vanguarda. Como tal, correra riscos , conscientes e inconscientes. Rompeu barreiras. Atravessou mares e preconceitos. Não saberia nunca encarar o mundo como um período constante de calmaria, sem a agitação das ondas e o perigo das águas em um turbilhão de redemoinhos.
Hoje sentia-se em paz. E essa paz a incomodava. Não teria mais como viver em ritmo de fuga, preocupada apenas consigo mesma: o futuro se transformara em presente e não lhe permitia olhar para trás. Compromissos não lhe concediam o direito de partir. Mundo de cartas marcadas, sem muita graça e emoção. Mas, mesmo assim, o mundo é belo porque é variado, refletia Augusta, virando-se na areia para atender o celular. Era sua filha que a esperava no hotel. Juntas, sairiam para almoçar.
Augusta, sorrindo para si própria, lembrou que fora na longínqua Austrália que optara pela maternidade. Levantando-se, com uma certa pressa, recolheu seus objetos para ir ao encontro daquela que, de certa forma, fizera dela uma mulher mais corajosa, pela responsabilidade em ter assumido sozinha um ser que dela dependia para viver e ser empurrado para o desconhecido.
A vida, às vezes, pode se tornar uma bela aventura, concluiu Augusta, feliz e contente, nessa manhã ociosa e ensolarada que lhe possibilitou um bela viagem em torno de si mesma.
"... Rasgando as almas que na sombra tremem." Violões que choram. Cruz e Souza.
De bruços, atirada na areia, olhos fixos no mar, Augusta desfrutava de merecidas férias, no litoral carioca. Imagens difusas e distantes passavam pela sua cabeça. Lembranças de outros tempos, de desafios vencidos, de derrotas ocasionais. Pensava no entusiasmo que a levou a vencer obstáculos, a seguir em frente, a lutar por tudo aquilo que a movia diante da vida. Pensava que já não era jovem, que abdicaria de certos sonhos, que não experimentaria ilusões em relação ao próprio cotidiano.
Sempre fora ela uma mulher de vanguarda. Como tal, correra riscos , conscientes e inconscientes. Rompeu barreiras. Atravessou mares e preconceitos. Não saberia nunca encarar o mundo como um período constante de calmaria, sem a agitação das ondas e o perigo das águas em um turbilhão de redemoinhos.
Hoje sentia-se em paz. E essa paz a incomodava. Não teria mais como viver em ritmo de fuga, preocupada apenas consigo mesma: o futuro se transformara em presente e não lhe permitia olhar para trás. Compromissos não lhe concediam o direito de partir. Mundo de cartas marcadas, sem muita graça e emoção. Mas, mesmo assim, o mundo é belo porque é variado, refletia Augusta, virando-se na areia para atender o celular. Era sua filha que a esperava no hotel. Juntas, sairiam para almoçar.
Augusta, sorrindo para si própria, lembrou que fora na longínqua Austrália que optara pela maternidade. Levantando-se, com uma certa pressa, recolheu seus objetos para ir ao encontro daquela que, de certa forma, fizera dela uma mulher mais corajosa, pela responsabilidade em ter assumido sozinha um ser que dela dependia para viver e ser empurrado para o desconhecido.
A vida, às vezes, pode se tornar uma bela aventura, concluiu Augusta, feliz e contente, nessa manhã ociosa e ensolarada que lhe possibilitou um bela viagem em torno de si mesma.
domingo, 30 de janeiro de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
frio - O Terremoto
FRIO
Sentir o
dia nublado
de frio e
vento.
Sentir tua
falta
no meio da
noite
gélida e
triste.
Sentir a
angústia da
procura de
teu corpo
por entre
os lençóis inúteis
para minha libido.
Sentir que
a penumbra
acabe
trazendo de
volta, teu riso
teu corpo
para noites
mais quentes
no inverno
e no vento.
Sentir o
dia nublado
de frio e
vento.
Sentir tua
falta
no meio da
noite
gélida e
triste.
Sentir a
angústia da
procura de
teu corpo
por entre
os lençóis inúteis
para minha libido.
Sentir que
a penumbra
acabe
trazendo de
volta, teu riso
teu corpo
para noites
mais quentes
no inverno
e no vento.
A Esperança - O Terremoto
A Esperança
"Car l'espoir, au contraire de ce qu'on croit, équivaut à la résignation. Et vivre c'est ne pas se résigner". (Noces. Albert Camus.)
Leonor pensava no sentido da esperança sentada à beira da lareira, no declínio da existência, imposto pelos anos. O que esperar dos dias que ainda teria pela frente? Sentia a lentidão das horas, as limitações físicas advindas da idade. Afinal, do alto dos seus oitenta e quatro anos, não podia se queixar da vida, do tempo já ido, dos contratempos, descompassos e surpresas.
Leonor realizara alguns sonhos de menina. Casou, teve filhos, netos. Ao tornar-se viúva soube preencher a ausência do marido com tarefas comunitárias, cursinhos de artesanato e convivência com amigos. Aposentada desde o sessenta e cinco anos, vivia o dia a dia entre as atribuições da casa e viagens de lazer.
Mas e agora? Lúcida e só, aprendera a não esperar. Não olhava para trás, recusava-se a viver de lembranças apenas. Queria continuar a ocupar seus momentos, até o último suspiro. Detestava pensar que era mortal. De emoções, necessitava sempre. Um dia após o outro não lhe bastava. Não podia se furtar ao desejo de usufruir de mais manhãs ensolaradas, mais noites tépidas de outono. Com as coisas terrenas, era o compromisso que lhe movia para o sentido de viver. Ao longo dos anos descobrira o cheiro da terra, aprendera a apreciar as coisas simples do cotidiano, as flores do jardim e a natureza toda.
O sonho e a esperança se mesclavam para Leonor, no ímpeto permanente de fugir da angústia, de olhar para frente sem pensar que a cada passo, que a cada segundo, suas chances terráqueas encolhiam.
Aquecida pelas brasas da lareira, no aconchego de sua sala de estar, sabia-se consciente da própria finitude. Qual seria o significado da esperança, senão a extensão dos atos repetitivos do cotidiano? Que importância teria a mesma agora? Leonor já não alimentava mais sonhos libidinosos, como quando ficou viúva. Soube administrar os próprios desejos e renúncias. Vivia com interesse o que a idade podia lhe proporcionar. Mas ensinaram-lhe a rezar, a ser paciente e tolerante. Não podia se rebelar. Pensava apenas que a esperança, para ela, não significava mais nada.
Tocou a campainha, do lado da poltrona, pediu os medicamentos para o problema circulatório de que sofria afastando qualquer possibilidade de crença em alimentar ilusões em relação à própria vida.
Levantando a cabeça, olhou firme para Ana, sua acompanhante, e perguntou:
-Afinal, o que significa a esperança?
"Car l'espoir, au contraire de ce qu'on croit, équivaut à la résignation. Et vivre c'est ne pas se résigner". (Noces. Albert Camus.)
Leonor pensava no sentido da esperança sentada à beira da lareira, no declínio da existência, imposto pelos anos. O que esperar dos dias que ainda teria pela frente? Sentia a lentidão das horas, as limitações físicas advindas da idade. Afinal, do alto dos seus oitenta e quatro anos, não podia se queixar da vida, do tempo já ido, dos contratempos, descompassos e surpresas.
Leonor realizara alguns sonhos de menina. Casou, teve filhos, netos. Ao tornar-se viúva soube preencher a ausência do marido com tarefas comunitárias, cursinhos de artesanato e convivência com amigos. Aposentada desde o sessenta e cinco anos, vivia o dia a dia entre as atribuições da casa e viagens de lazer.
Mas e agora? Lúcida e só, aprendera a não esperar. Não olhava para trás, recusava-se a viver de lembranças apenas. Queria continuar a ocupar seus momentos, até o último suspiro. Detestava pensar que era mortal. De emoções, necessitava sempre. Um dia após o outro não lhe bastava. Não podia se furtar ao desejo de usufruir de mais manhãs ensolaradas, mais noites tépidas de outono. Com as coisas terrenas, era o compromisso que lhe movia para o sentido de viver. Ao longo dos anos descobrira o cheiro da terra, aprendera a apreciar as coisas simples do cotidiano, as flores do jardim e a natureza toda.
O sonho e a esperança se mesclavam para Leonor, no ímpeto permanente de fugir da angústia, de olhar para frente sem pensar que a cada passo, que a cada segundo, suas chances terráqueas encolhiam.
Aquecida pelas brasas da lareira, no aconchego de sua sala de estar, sabia-se consciente da própria finitude. Qual seria o significado da esperança, senão a extensão dos atos repetitivos do cotidiano? Que importância teria a mesma agora? Leonor já não alimentava mais sonhos libidinosos, como quando ficou viúva. Soube administrar os próprios desejos e renúncias. Vivia com interesse o que a idade podia lhe proporcionar. Mas ensinaram-lhe a rezar, a ser paciente e tolerante. Não podia se rebelar. Pensava apenas que a esperança, para ela, não significava mais nada.
Tocou a campainha, do lado da poltrona, pediu os medicamentos para o problema circulatório de que sofria afastando qualquer possibilidade de crença em alimentar ilusões em relação à própria vida.
Levantando a cabeça, olhou firme para Ana, sua acompanhante, e perguntou:
-Afinal, o que significa a esperança?
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Visita - Celina Hamilton Albornoz
Visita
Nesta mesma data, há tempos, me alojava na preguiça do entre festas e a tíbia brisa do verão. Costumava chegar à casa da tia e encontrá-la na penumbra para espantar o mormaço, envolta em perfume de flores que enchiam os vasos distribuídos pela casa. Seus pés pousavam em um puff, os braços encremados, as veias da mão salientes se destacando entre as jóias que a enfeitava. Possuía um anel com uma pedra opaca, azulada, uma água marinha lapidada de forma inesperada, moderna. E a pulseira de placas com esmeraldas. Não tudo usado junto, claro, mas a memória, sôfrega, mais rápida do que as lembranças, fica louca para trazer todos os detalhes e os mistura. Nem sei de onde veio o sentimento reconfortante, o abraço terno que talvez em vida eu nunca tenha recebido dela e que hoje, por causa do ar morno entrando pela janela, do sentimento que me fez voltar ao antigamente, sinto me apertando carinhosamente os braços. Feliz como eu era então naquela contingência, permeada pela realidade, verdadeira, a sensação está comigo. Trago em mim, como diria Fernando Pessoa, todos os sentimentos que há no mundo. De vez em quando, abro a porta e eles vêem me visitar.
Celina Hamilton Albornoz
Cadeira n° 28
Nesta mesma data, há tempos, me alojava na preguiça do entre festas e a tíbia brisa do verão. Costumava chegar à casa da tia e encontrá-la na penumbra para espantar o mormaço, envolta em perfume de flores que enchiam os vasos distribuídos pela casa. Seus pés pousavam em um puff, os braços encremados, as veias da mão salientes se destacando entre as jóias que a enfeitava. Possuía um anel com uma pedra opaca, azulada, uma água marinha lapidada de forma inesperada, moderna. E a pulseira de placas com esmeraldas. Não tudo usado junto, claro, mas a memória, sôfrega, mais rápida do que as lembranças, fica louca para trazer todos os detalhes e os mistura. Nem sei de onde veio o sentimento reconfortante, o abraço terno que talvez em vida eu nunca tenha recebido dela e que hoje, por causa do ar morno entrando pela janela, do sentimento que me fez voltar ao antigamente, sinto me apertando carinhosamente os braços. Feliz como eu era então naquela contingência, permeada pela realidade, verdadeira, a sensação está comigo. Trago em mim, como diria Fernando Pessoa, todos os sentimentos que há no mundo. De vez em quando, abro a porta e eles vêem me visitar.
Celina Hamilton Albornoz
Cadeira n° 28
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